Por Que Deus Permite o Mal? Uma reflexão alquímica escrita no aniversário de uma m0rt3 muito necessária.

Escrevo este artigo no dia 06 de junho. Há exatamente um ano, eu morri.
Não de forma épica, nem particularmente heroica. Foi uma batalha inglória, daquelas que ninguém conta em volta do fogo com orgulho. Uma arrogância silenciosa — daquelas que sobrevivem nas sombras da consciência por anos, alimentando-se de pequenas certezas e teorias confortáveis — se tornou meu algoz. E ali eu pereci sob as garras do Lobo Negro: o meu próprio Ego.
Hoje eu honro imensamente esse momento. Chamo de minha primeira grande m0rt4.
Depois dela, outras mortes vieram — algumas pequenas, algumas sutis, todas necessárias — até chegar no momento mais recente, onde eu simplesmente percebi que era hora de deitar e aceitar o meu próprio funeral.
Não leia isso como algo fúnebre ou assustador. Pelo contrário.
Naquele momento, há um ano, era sim um processo complexo de dor e sofrimento. Eu estava no escuro profundo — na noite escura da alma. Não havia para onde correr, não havia para quem recorrer. Era somente eu e a escuridão absoluta. Uma escuridão tão perfeita e completa que nem mesmo sombras eram enxergadas. E ali eu me sentei. E, como uma boa taurina teimosa, não me entreguei.
Recorri ao que eu tinha em mãos: se eu cavei aquele poço sozinha, então também iria construir os degraus para sair. Assumi a responsabilidade.
PNL, Hermetismo e os próprios ensinamentos Crísticos eram as minhas únicas ferramentas em mãos.
Reconheço hoje que aquele momento foi o mais especial e importante dessa história humana. Sem ele, eu não teria me tornado testemunha ocular de milagres — ou quem sabe me tornado o próprio milagre, descoberto o segredo de transformar água em vinho ou de caminhar sobre as águas. Tudo começou ali, quando recebi o meu primeiro “insight bíblico” — como apelidei os momentos que passaram a se tornar comuns, quando espontaneamente eu me recordo de um trecho bíblico que nunca li ou me aprofundei antes: um pensamento espontâneo que veio de dentro. Deitada e sem “nada”, ouvi dentro de mim: “a história de Jó”.
Ali comecei a busca que me levou a entender o que era a noite escura da alma em seu verdadeiro significado. Conheci a Nigredo. E aquela alma corrompida pelo ego, que teve uma morte triste e dolorosa, deu lugar à Alquimista Moderna que hoje vos fala.
Cuidado com o que você deseja... pois se tornará realidade, de um jeito ou de outro.
Há pouco mais de três, anos eu me interessei por Alquimia. Comecei pelo básico das leis universais e me empenhei em descobrir seus mistérios, o oculto, a verdade sobre o Universo.
Não sabia que para isso eu teria que passar pela morte. Uma, duas, dez, quantas vezes fossem necessárias.
Solve et Coagula. Dissolvendo, contraindo, expandindo.
De novo e de novo.
E então, recentemente, me peguei acessando mais um conhecimento universal. Aproveitando esse aniversário — muito mais de vida do que de morte — resolvi trazer como tema reflexivo, e de aula de automaestria, a pergunta que muitos já se fizeram, mas poucos pararam para realmente responder:
Por que Deus permite o mal?
Para chegarmos a essa resposta, precisamos antes refletir sobre uma pergunta menor, porém mais honesta:
Por que nós nos autopunimos?
O Mal que Fazemos a Nós Mesmos — Sem Perceber
Observe o ser humano no dia a dia.
Ele sabe que precisa dormir, mas fica mais uma hora olhando para a tela. Sente sede, mas empurra o copo d'água para depois. Tem fome, mas pula a refeição porque está "ocupado demais" — ou se conforma com uma refeição rápida e gordurosa. Carrega peso de forma errada e estraga as costas lentamente, um movimento descuidado de cada vez. Ignora o sinal de dor no joelho até que caminhar vire um martírio. Adia o médico, a conversa difícil, o descanso, o choro que precisava sair...
São pequenos atos — insignificantes isolados, devastadores acumulados.
E o mais curioso: nenhum deles nasce de maldade. São automatismos. Padrões. A consciência adormecida operando no modo sobrevivência enquanto a vida passa.
Agora escale isso. Leve para os relacionamentos sabotados antes de se tornarem amor de verdade. Para os sonhos abandonados um pouco antes da realização. Para a guerra que se declara internamente toda vez que alguém decide não ser suficiente. Para os casos mais profundos — onde uma pessoa se fecha completamente, trava em uma cama e acredita, com toda a convicção, que não há mais saída.
A pergunta continua a mesma: por que nos prejudicamos?
E a resposta, quando finalmente se revela, muda tudo.
A Força que Contém e a Força que Cria
Aprendi com Dion Fortune — poucas semanas depois da primeira grande morte —, estudando A Doutrina Cósmica, que existem duas forças fundamentais na criação. Uma sempre tende para a estabilidade — para o silêncio, para a paz absoluta, para a contenção. A outra é criativa e expansiva — nunca para de criar, de crescer, de se mover em todas as direções.
Nenhuma das duas é o mal. Cada uma é necessária para que a outra exista de forma harmônica. A força de contenção, sem o seu oposto criativo, tenderia a dissolver toda a criação de volta ao vazio do silêncio absoluto. A força criadora, sem a contenção, perderia totalmente o controle — a criação seguiria infinitamente, sem limites, sem forma, sem propósito.
Uma estabiliza a outra. Uma permite que a outra exista.
Assim era o meu Ego atuando: me contendo com todas as forças, pois para ele, se eu continuasse expandindo infinitamente, eu seria uma ameaça a mim mesma. O problema não era a contenção em si — era que eu havia me permitido travar completamente. Saí da dança harmônica entre criar e pausar, e fui para a polaridade absoluta da paralisia, depois de meses me obrigando com rigidez beirando a ditadura à criar e produzir sem parar.
Voltar ao equilíbrio exigiu uma força absurda — pois eu havia me afastado muito do polo criativo. Mas foi possível. Porque encontrei toda a força do Universo dentro de mim. Bastou uma faísca, e a ascensão teve início.
A Natureza da Fonte — e o que Ela nos Ensina sobre o Mal
A Carta 1 de Cristo é direta sobre qual é a natureza da Fonte Criadora.
Ela descreve nove características: crescimento, nutrição, cura, proteção, satisfação das necessidades, trabalho, sobrevivência, ritmo, lei e ordem.
Tudo criativo. Tudo expansivo. Tudo voltado para o florescimento da vida.
E então vem o insight que muda a pergunta completamente:
Não existe um "Deus" separado da sua criação.
A Carta 1 deixa isso claro quando descreve o que Jesus compreendeu no deserto: "Compreendi que a VIDA e a CONSCIÊNCIA eram um e a mesma coisa... A Consciência era a Vida e a Vida era a Consciência." Não há um criador externo observando de longe, distribuindo recompensas e punições. Há uma Consciência Criativa que é a criação — que vive em cada folha, em cada inseto, em cada ser humano.
Isso transforma a pergunta "por que Deus permite o mal?" em outra coisa inteiramente.
Se não existe separação entre o Criador e o criado, quando uma criança sofre, é a própria Fonte Criadora que sofre. Quando um animal perece, é ela que perece. E quando nós nos sabotamos — quando não dormimos, quando não nos alimentamos, quando travamos em camas acreditando que não há saída — somos nós mesmos, expressões diretas dessa Consciência, levantando barreiras entre nós e o Pai Criativo — o Todo está fazendo tudo consigo mesmo, assim como nós.
"Não há punição vinda do alto! O homem, por meio do exercício voluntário e prejudicial do 'Poder do Ego', atraiu para si mesmo a sua própria punição."
Então a pergunta real nunca foi "por que Deus permite o mal".
A pergunta real é: por que precisamos passar pela dor para aprender? Por que fazer isso a si mesmo?
Gostaria de vir aqui e trazer uma resposta perfeita e completa, mas a minha nova vida veio com o aprendizado de que não sei tudo. E que bom!
Mas tenho sim suposições: a Nigredo, a fase da dissolução, é necessária para o início de uma grande Obra divina, que fará com que tudo que estava “doente” seja separado da matéria-prima que será utilizada para criar algo maravilhoso — metaforicamente simbolizado pelo Ouro Alquímico.
Pensando assim, todo “mal” e “destruição” que vemos pelo mundo afora, nada mais é do que o próprio Criador expurgando suas mazelas, para poder voltar a ser inteiro e “saudável” como um Ser único e infinito.
🦋 A Destruição Não é o Mal. É Uma Etapa.
Hoje tenho alegria em dizer que não sei absolutamente nada — mas que irei dedicar cada instante da minha existência a conhecer um pouco mais.
É uma jornada alquímica. A Nigredo é necessária. A morte e a destruição são necessárias — sem elas, a Albedo, a luz da criação, não volta a brilhar.
A Rubedo, a obra completa, jamais seria conhecida.
Cada "mal" que experienciamos — cada queda, cada perda, cada dissolução dolorosa — nada mais é do que uma necessidade sendo satisfeita pela própria Natureza da Fonte. O crescimento exige que o que estava velho seja dissolvido. A cura exige que a ferida apareça. A transformação exige a morte da forma anterior para que o novo ser completo e perfeito possa surgir.
Solve et Coagula. Dissolver para recompor.
Sempre em uma forma superior.
🍁 Uma Palavra para o Inverno que Chega
Escrevo isso às vésperas do inverno — para lembrar que as noites se tornarão mais longas, que o sol vai demorar um pouco mais para surgir, mas que essa fase do ciclo é tão necessária quanto a primavera e o verão.
Não lute contra o frio e a escuridão.
Abrace-a. Aproveite tudo de melhor que essa estação tem a oferecer.
Não julgue se o seu ritmo diminuiu. Não é hora de criar, de se arriscar ou de se comparar com o que você vinha fazendo nos meses anteriores.
Agora é hora de dissolver tudo que não serve mais. De se acolher, recolher e deixar ir — incluindo você mesmo, se for necessário.
E confie: fazendo a sua lição de casa, você será o próprio milagre na próxima primavera.
E como sempre, essa é a minha visão.
Não acredite em nada do que eu disse aqui.
Procure pensar os seus próprios pensamentos a respeito e, se possível, atravesse a sua própria transmutação interior.
Só assim você conhecerá a verdade. E saberá que sabe.
Alquimista Moderna
06 de junho de 2026
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👽 ESCRITO POR:
Cássia Sena
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